sábado, 24 de janeiro de 2015

Só quero estar lá...





Sou gorda. Vocês sabem disso. E quem me conhece sabe mais. Eu uso biquíni na praia. 

Não disfarço, há alguns anos, minha barriga grande em um maiô. Não escondo as coxas coladas e com celulite em bermudas de algodão enquanto tomo banho de mar. Não ando cabisbaixa na beira-mar. Pois, não tenho vergonha de mim ou do que sou. E, em uma contradição assombrosa até para mim, embora eu me considere bonita, não penso que meu corpo seja agradável ao olhar. Mas me dou o direito de ficar tão à vontade quanto os pálidos e esquálidos. Quanto os magros ou os falsos magros. Ou aqueles deuses e deusas do verão, que se exibem sobre a areia para nosso deleite. 

Eu não acho a maioria das pessoas bonitas na praia, mas respeito a vontade e o direito delas de ocuparem o espaço como quiserem. Nada mais natural do que usufruir do mesmo direito.

Vou aproveitar que estou nessa conversa aberta e confessar: fico incomodada com o olhar de incredulidade quando estou na praia. O riso não me incomoda. O cochicho também não. Afinal, como costumo dizer, quem nasceu preta e cresceu gorda nessa vida está habituada com o bullying. Agora, o olhar de incredulidade não. Ele é limitador ao que considero meu, também.

Essa pessoa não acredita no que vê. E fica mirando, ostensivamente, para se convencer de que é verdade: uma mulher gorda que pensa ter o direito de usar biquíni na praia. 

Esse olhar traz mais informações. Além de te negar esse direito, também expõe sua repulsa pelo teu corpo disforme, expondo o que imagino ser inveja pela minha coragem, mas não é coragem... É apenas a minha naturalidade. A minha vaidade (gorda) de mulher. Esse olhar reforça preconceitos. “Se ela pensa que pode andar assim, por que deveria me privar de usar também, já que sou ‘bonita’?” 

Esse olhar é de ofensa. Sim. Eles se sentem ofendidos por eu estar expondo algo de que não gostam. Impondo a eles uma visão que não querem ter a opção de ver. Mas para mim é uma situação clara: basta não olhar.

No entanto, julgam-me. Sei lá de que. Mas é um julgamento sem ser culpada. Sem participar de concurso. Apenas o comportamento de estar ali, num lugar público, da maneira que me dou ao direito. É. Eu tenho esse direito. De tomar sol em quase minha totalidade, combinando as peças do biquíni (ou não), de me refrescar ao máximo. Ou o simples fato de querer sentir a água fresca do mar, borbulhante e salgada, acariciando a minha pele flácida sobre uma farta camada adiposa.

Mesmo assim não adianta. Sou condenada. Alguns tentam disfarçar. Outros nem tentam. Os mais jovens, adolescentes, são audaciosos: tiram foto, comentam entre si, apontam. Eu viro atração na praia. Tem dias que eu gosto. Outros nem um pouco. Mas sempre fico imaginando: em um verão isso vai passar. Ou de tanto eles me verem de biquíni. Ou por que irão se dar conta... De que meu comportamento não vai mudar. 

Não sei se é certo ou errado. Só quero estar lá. Na praia. E de biquíni.

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