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Quase um estranho

by Ruy Carlos Ostermann


O aniversário de Porto Alegre passou por mim docemente, não fiz um gesto especial nem me atrevi a uma fala demasiada sobre essa nossa jovem cidade. Passou por entre as minhas mãos, alojou-se num pé, correu pela perna e, vez por outra, me trouxe um calafrio que não era de susto, nem de ansiedade, mas simplesmente de estar ali, na esquina, diante do prédio, as pessoas ao redor e mais à frente, todo mundo com muitas tarefas numa semana tão especial. Mas que passou pelas pessoas como passou por mim como um episódio demasiadamente pessoal e por isso intransferível, uma experiência para dentro, que são as únicas que têm profundidade e não voltam se não sob outra forma, dissolvidas, numa nuvem imperceptível. São as emoções, os acontecimentos pessoais, o silêncio da experiência, qualquer que seja, não importa o rumo, só tem importância o fato em si mesmo, sem correspondências. Foi como fiquei na Rua da Praia num dia desses das comemorações. E fui para o Mercado Público, dei voltas, encontrei pessoas, parei numa banca, espiei as primeiras mesas do Gambrinus, cumprimentei os garçons e tive de seguir em frente como um visitante, quase um estranho, sem cidade, sem paradouro, sem conhecidos, um ser muito solitário em meio a tantas pessoas. O aniversário passou assim.


[Faço minhas - com a sua licença professor, ou não -, as palavras desse espetacular escritor e jornalista]

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