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Cortem-lhe a cabeça



Quem sabe eu ainda

Sou uma garotinha

Esperando o ônibus

Da escola, sozinha...

Tenho essa impressão quase sempre. De que sou uma guriazinha, tola, infantil e com muita imaginação. Uma menina em corpo de mulher. Eu envelheço. Minha pele perde a tenacidade anos após anos. O cabelo, o viço; e a agilidade física, que nunca foi um primor, se vai quase que ao mesmo tempo que a disposição. Tenho 35 anos e 9/12, mas, na maioria do tempo, a idade mental é de menos. Bem menos...

Alice tem quase 20 anos e tem que decidir se vai casar ou não, se vai crer no Mundo subterrâneo ou se toma o leme de sua vida. A personagem poderia ter outro nome. Elaine. Com exceção de que não tenho nenhum pretendente para marido, o resto é igual no meu cotidiano.

“Às vezes, antes de tomar o café da manhã, penso em seis coisas impossíveis de acontecer”, diz Alice no País das Maravilhas. Eu nem preciso abrir os olhinhos para ver o mundo de fantasias e no meu café da manhã, preciso, fervorosamente, acreditar em seis coisas necessárias para que volte ao mundo real.

Já deu pra perceber que fui ao cinema hoje. Obviamente também conhecem o filme ou já ouviram falar da fábula de Lewis Carroll. Embora a grande semelhança entre eu a guriazinha imaginativa, minha empatia nesta versão da película foi com a Rainha de Copas. Ela, que na verdade só queria ser amada, optou em ter admiradores pela tirania. Uma opção. Ruim, mas uma alternativa. Só por isso ela já teve a minha simpatia. Por lutar.

A Rainha de Copas, com aquele cabeção e cachos vermelhos me fascinou, mesmo sabendo que a maledicência não tem vez no coração dos que tem fé. Não questiono isso, mas seu charme. E a habilidade de ordenar para que cortem-lhe a cabeça a qualquer contrariedade. Eu, no momento, diria o mesmo para a cabeleireira safada da esquina, que alisou meus cabelos sem meu consentimento. Mas, principalmente para mim mesma. Cortem-me a cabeça!

É. Preciso perder a cabeça cheia de fantasias. O momento é de praticidades, realidade, vitalidade e buscas.

Bobeira

É não viver a realidade

E eu ainda tenho

Uma tarde inteira

Eu ando nas ruas

Eu troco um cheque

Mudo uma planta de lugar

Dirijo meu carro

Tomo o meu pileque

E ainda tenho tempo

Prá cantar...

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