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Pra morrer basta estar vivo


Eu não sabia o que significava morte súbita até nove dias atrás. É uma dor lacerante no peito que fica na gente depois que a pessoa que amamos vai embora, repentinamente. Sem explicação. E enquanto essa dor não adormece, se percebe que ou se fez tudo que deveria ter sido feito em cada momento com a pessoa amada, ou essa vivência foi ignorada por egoísmos ou outros sentimentos quaisquer. Graças a Deus e a todas as entidades de luz que pertenço ao primeiro grupo. Que por um último dia, ainda pude compartilhar das palhaçadas e birras de meu pai.

Mesmo assim, isso não serve para amenizar a perda. Fico pensando que embora minhas idas e vindas, perdi quatro anos de convivência com o único homem que me amava, incondicionalmente. Dele, torto ou direito, eu aprendi a amar, ser pidona e bobalhona. Herdei o riso e o gosto pela boemia. A necessidade de ser independente, livre e dar o valor ao trabalho - mesmo quando se quer jogá-lo fora e virar hippie. Tudo isso e muito mais são ensinamentos que ficam em minha alma, ao lado da certeza de que se pudesse escolher, nasceria do mesmo pai e mãe mais 456 vezes.

Dos 74 anos de sua vida, eu compartilhei pouco mais que 35. Porém, minha memória é falha. Os arquivos guardam apenas flashes da infância feliz que tive. Pobre, mas feliz. E ele estava sempre lá, ao meu lado. Não dá pra explicar ou entender quando chega a hora de partida de uma pessoa. Não consigo, pois sou mundana demais. Mas agora eu só tenho lembranças de momentos, que já faço força para que nunca se apaguem de mim.

Não foram poucas às vezes em que ele me disse durante conversas ou discussões sobre o que seria da gente quando ele se fosse. Nesses momentos, racional demais, eu tinha respostas. Agora, elas ficaram ao vento. Sumiram. E só resta outra certeza; desgastada e vazia até o momento em que ela acontece, dita por mim a ele cada vez que um amigo seu partia, num consolo insensível sobre o medo ou a dor: “É pai... Pra morrer, basta estar vivo”.

Na sua despedida não houve samba [ou qualquer outra música como ele queria]. A gente não estava preparada para isso. Mas seus amigos, família e parentes próximos [até os distantes e vizinhos briguentos] estavam todos lá. Com dor, porém desejando-lhe um caminho de luz até seu destino. Pra quem sempre esteve ao lado de todos - amparando, estendendo a mão ou fazendo festa - não poderia ter sido diferente. No fim, tivemos este alento aos nossos corações feridos. Agora, sigamos em frente...

Comentários

Nega, por isso devemos estar sempre com as malas "da alma" prontas....a morte não escolhe tempo, sexo, cor, idade...ela chega de repente e leva embora, não apenas quem amamos, mas tbm parte do nosso coração....

Força e perseverança....

Bjo..
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse…
O que importa é que as coisas boas ficam e são essas memórias que irão sempre mantê-lo vivo em seu coração.
Bjs da Rou.
Elaine Gaspareto disse…
Elaine,
Que pena... mas ao mesmo tempo que bom que foi rápido, sei lá o que é pior...
Melhor não dizer mais nada porque diante da sua dor as palavras não expressam o que eu gostari de dizer...
Beijos.
Eu sei que estás a sofrer, e muito. Tenta lembrar dele sempre, para que ele viva em ti da forma que for possível.

Lendo teu texto, lembrei-me de quando meu avô materno, Seu Agenor (meu Nonô) estava na Unesp de Botucatu, a cidade onde morávamos. Fui eu a única pessoa da família que passei com ele os últimos momentos e dei-lhe o comforto que eu pude, lendo um livro de poemas (o Rubayyát, do Omar Khayyám), conversando, ouvindo, ficando em silêncio, estando perto... Jamais esquecerei estes momentos.

Sejas forte, Elaine, vais superar.

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