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Um dia de Saci*




O dia 31 de outubro foi especial para Rita Silveira, 38 anos. Ela havia saído de casa para comprar um presente para o filho. “Ele tinha visto nas Americanas a propaganda do haloween e ficou chorando porque queria um brinquedo. Eu não tinha dinheiro, então, hoje, vim comprar”. Só que, antes de chegar na loja, Rita viu um enorme Saci que fumegava seu cachimbinho em plena Felipe Schmidt , principal rua de Florianópolis. Ela parou, conversou com os trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina – que promoveram o Dia do Saci e seus amigos – e desistiu da compra. Voltaria para casa com um broche do Saci, o panfleto, e contaria ao filho Júlio a história do molequinho brasileiro que – ela havia esquecido – já encantara sua própria infância.
O dia nacional do Saci Pererê e seus amigos é uma idéia que anda vicejando por todo o Brasil. Nasceu para se contrapor à invasão cultural das bruxas do haloween, festejo típico dos Estados Unidos em que as crianças saem fantasiadas de demônios, bruxas e outros bichos a exigir doces, ameaçando com travessuras. Essa comemoração começou a pipocar nas escolas de inglês, o que é muito interessante. Afinal, quem aprende uma língua precisa também aprender aspectos da cultura. Mas, com o passar do tempo, as escolinhas infantis, as escolas públicas de ensino e até o comércio começaram também a festejar o haloween. É, assim mesmo, em inglês.
Pensando em recuperar os mitos da terra brasilis, várias entidades começaram a trabalhar com a idéia de criar um dia do Saci Pererê e os trabalhadores da UFSC decidiram abraçar a causa. Como a luta sindical é uma batalha diária por vida digna, riquezas repartidas e soberania, nada mais lógico do que começar uma campanha de valorização da cultura nacional. “Nada temos contra os mitos de outras terras, até porque os mitos fazem parte da cultura universal. O que queremos com o Dia do Saci Pererê é apenas trazer à memória das crianças nossas histórias também. Por que não privilegiar os mitos nacionais? A dominação cultural é sempre a porta de entrada para outras dominações, ainda mais ferozes e predadoras”, lembra Raquel Moysés, uma das coordenadoras do Sintufsc.
Assim, ajudado pela Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci), que tem sede em São Paulo, o sindicato levou às ruas de Florianópolis a história do Saci. Para quem não conhece, bem antes de os portugueses invadirem as terras de Pindorama já existia o Saci. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Liberdade

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão. Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: LIVRE! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil. O Saci Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade.
Com o processo de dominação cultural imposto pelos Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar na vida das crianças brasileiras a história do haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo. A história é bonita, mas não é nossa.
Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras no país do Tio Sam, e agora também no Brasil, além de outros países. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. Isso é tão sério que até mesmo nos condomínios da classe média, em Florianópolis, as crianças já se organizam em grandes grupos, a bater de porta em porta, usando o mesmo jargão: guloseimas ou travessuras. Essa experiência viveu a jornalista Míriam Santini de Abreu no último dia 31 de outubro. “É bem triste ver que a gurizada já se rendeu a esta fórmula estrangeira. E quando a gente fala no Saci eles ficam assim, meio sem saber o que fazer. Creio que se os professores falassem mais sobre nossa cultura nas escolas, as coisas seriam diferentes.”
E foi para fazer esse trabalho de valorização da cultura nacional que os trabalhadores da UFSC foram para a rua levar o Saci para saracotear na rua principal. Em greve desde agosto, na defesa da universidade pública, eles puderam falar de seus sonhos de um país soberano na política, na economia, na arte e na cultura. Para isso, trouxeram ainda, além do Saci, a figura de Pedro Tainha, um manezinho típico da ilha, para contar causos do Saci, e também o Boi-de-Mamão, folguedo infantil que faz parte do folclore e da cultura local. “As coisas da gente estão cada vez mais se apagando, saindo da memória. As crianças não brincam mais o boi, não conhecem nossos mitos. Isso aqui foi uma idéia linda”, dizia uma dona de casa que saiu para ir ao supermercado e ficou por ali a tarde toda.
Assim, a tarde do dia 31 de outubro em Florianópolis acabou sendo de festa para a criançada. Mesmo aquelas que saíram para comprar brinquedos – já dentro da lógica do capital – tiveram a oportunidade de ver que há outras coisas pululando no mundo da vida. Seres encantados que saem das páginas da nossa própria história. Este ano foram o Saci e os personagens do Boi-de-mamão. Para o próximo ano, o sindicato já está pensando em trazer outros amigos do Saci como o Caipora, o Curupira, o Boitatá, a Cuca e o Negrinho do Pastoreio. Juntos, eles vão reencantar a vida. O Sintufsc também deve se engajar na luta pela instauração de um dia nacional do Saci, briga que já está sendo travada na Câmara Federal através de um projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB). Faça o mesmo. Dê espaço para suas raízes! Viva o Saci Pererê.

*
Texto publicado no Jornal do SINTUFSC - Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina

Comentários

Oi , eu não falei cursinho DE jornalismo, mas cursinho PARA jornalismo.
Qto, ao item 22 qto mais melhor, sou carnivoro por natureza, adoro comer carne, muito. vc tem msn?
me animou(rsrs)
Tenha uma feliz semana.
Maurizio

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