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Com ele eu já subi e desci lombas


Não sou uma mulher religiosa e tenho poucas crenças. Mas com ele, eu já subi e desci muitas lombas em Porto Alegre. Pode não parecer, mas sou devota de Santo Antônio, seja ele de Pádua ou do Partenon (ou qualquer outro). É a ele, e também a Anastácia, que sempre que aperta o calo eu recorro às orações. Sim, também oro, mas não da forma convencional. Não sou adepta e também nem conheço esses discursos, além do Pai Nosso e da Ave Maria.

Conheci Antônio quando pequena. Minha mãe ia de vez em quando à Casa do Pão dos Pobres, no bairro Cidade Baixa, fazer suas arengas e também pegar o pão bento, em algumas terças-feiras. Eu, como sempre fui uma criança gulosa, adorava ir ver o santo de vestido marrom, chinelos e com uma corda na cintura. Lá tinha aquele pãozinho saboroso, macio, de sabor diferente, envolto numa embalagem de papel. Minha mãe dizia que tinha que fazer o sinal da cruz e comer três pedacinhos, ao mesmo tempo em que se faziam os pedidos. Um pedido para cada pedacinho. E o restante do pão levar para casa, para dividir com os demais... Coitados! Se dependesse de mim nunca teriam o pão bento.

Então, desde pequena eu já pecava. Era um caso perdido. E confesso: uma vez gulosa, sempre gulosa. Eu comia o meu pãozinho todinho enquanto selecionava os únicos três pedidos que deveria fazer. Era difícil demais para uma criança, cheia de ilusões infantis, selecionar apenas três desejos... Obviamente que minha mãe explicava que deveria pedir saúde, que fosse uma boa aluna e tivesse juízo (ou que os obedecesse). Claro que não era nada disso que tinha em mente. E enquanto refletia sobre minhas carências infantis, comia. Não era raro o último pedaço conter os três desejos, pensados rapidamente antes que a migalha derretesse na boca. É! Desde cedo eu cometo o pecado da gula, até mesmo com o pão de Santo Antônio.

Nessa época eu morava no Partenon e só conhecia esse Antônio. Depois me mudei para o bairro que leva o seu nome, e adivinhem? Tem uma igreja dele também, a pouco mais de duas quadras. Linda! Onde meus pais reafirmaram o casamento nas suas bodas de prata e onde meu irmão, aquele bocó, casou com a professora surucucu. É esta unidade religiosa que realiza a tão famosa Procissão de Santo Antônio, a qual comecei a realizar todos os dias 13 de Junho.

O evento religioso era também uma reunião social. Minha casa era o ponto de encontro de meus amigos e familiares. A ladainha de Antônio começava pela manhã, às 9 horas. À tarde, novamente ela acontecia, era também quando a parentada começava a chegar, geralmente depois da caminhada de orações e agradecimento, para o tal chá da tarde. Mas era próximo às 20 horas que o bicho pegava. Antes disso, o nosso lar era uma Casa de Chá, onde a mulherada mais pareciam gralhas que produziam luminárias com velas e garrafas PET para a procissão luminosa.

Esse é o terceiro ano que não vou à procissão luminosa. Minha mãe também não vai mais nessa, freqüenta agora a da tarde, cujo trajeto é menor, mas é menos frio e ainda dá tempo de voltar para casa e zelar pelo meu pai. A quem me pergunta se Antônio é um santo casamenteiro, eu sempre digo que não sei. Porque nunca pedi marido ou namorado a ele. Mas para trabalho (e saúde), êta santo batalhador! É por isso que com ele, eu sempre subo e desço lombas, quando mantenho minha fé inabalável.

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