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As vaias

Um sinal de descontentamento claro. É isso que significam as vais. Quem nunca vaiou alguém? Crianças fazem isso, adolescentes, adultos. Penso que é um ato democrático que reflete uma opinião contrária de uma ou mais pessoas, sobre algo que incomoda ou uma discordância.
As vaias recebidas pelo presidente Lula durante a cerimônia de abertura do Pan foram um reflexo de uma parte, restrita, da população. Eles estavam no seu direito, mas não creio que tenha sido o momento exato. Afinal, geralmente se vaia alguém no momento real do descontentamento. O que não era o caso, afinal, todos os presentes queriam assistir a cerimônia de abertura de um evento espero por dez anos. Pagaram de R$ 20, setor D, a 250,00, setor A e com certeza não foi para vaiar. Mas exercer o direito de cidadão, comparecendo a atos de governo, para vaiar, aí ninguém quer. Se organizar para manifestar o desagrado sobre as políticas públicas dá trabalho demais. Então, a praticidade do útil ao agradável do brasileiro foi o que venceu.
Mesmo assim, ainda penso ser um ato democrático, que, com efeito, fez com que o presidente quebrasse o protocolo e passando a vez em declarar os jogos abertos, como cabe a todo “dono da casa”. O entendo é que agradar gregos e troianos é um ato difícil. Eu, por exemplo, já não tenho esse objetivo. Mas, penso que no caso do presidente da república, essa manifestação contrária a tudo que vem acontecendo no cenário político deva se tornar uma meta desafiadora, no intuito de melhorar a receptividade a sua administração.
E já que falei em gregos, vou refletir aqui o histórico das vaias, brevemente. Esta manifestação de desaprovação é milenar, vem pelo menos desde a Grécia Antiga. Seu registro mais remoto vem do governo do reformador grego Clístenes, um dos governantes de Atenas que ajudaram a formar o conceito de democracia, no século 6 a.C. Os gregos reunidos em assembléia manifestavam sua aprovação ou desaprovação aos oradores por meio de palmas ou vaias, bem como hoje.
Os concursos de teatro nos quais competiam as tragédias, por ocasião dos festivais religiosos, eram de comparecimento obrigatório, daí a população vaiar as peças que não gostava para que sua apresentação fosse interrompida com antecedência. Na atualidade, a performer Denise Stocklos, destaque com suas apresentações que casam texto, encenação, mímica, apresentou em setembro de 1995 a peça Elogio no 2º Porto Alegre em Cena. Quando o espetáculo, com duração de três horas, estava na segunda hora, um grupo de 30 pessoas exigiu, aos gritos e muita vaia, que a peça fosse interrompida antes do fim.
Anos antes, também no mundo das artes, na eliminatória paulista do 3º Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, Caetano Veloso apresentava sua composição É Proibido Proibir, e foi alvo de intensa vaia do público, que o considerava alienado. O compositor parou de tocar e comprou a briga, xingando de reacionária a juventude esquerdista que, nas suas palavras, "não estava entendendo nada".
O anti-americanismo que levou o público brasileiro a vaiar as atletas da delegação americana neste Pan não é fenômeno deste ano. Em janeiro de 2001, na 3ª edição do Festival Rock in Rio, a popstar Britney Spears, ao interpretar a música Lucky, projetou no telão uma bandeira americana. O público vaiou e repudiou a imagem aos gritos de "Brasil, Brasil".
Estes foram alguns exemplos. Assim foram e ainda serão outras manifestações do tipo. Afinal, vaias são o descontentamento de um grupo, numa sociedade democrática.

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