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O peso dos 30 anos

BR Press Patu Antunes, do Extra*

É preciso encarar os fatos: tem coisas que a idade não nos permite mais fazer. O mundo avançou, os costumes estão (bem mais) liberais e poucos ainda ficam horrorizados quando uma mulher de 30 e tantos usa uma minissaia provocante. Mas e aí? Tem a verdade inexorável: os anos passam e o corpo sente. Como quando enchemos a cara e levamos três dias para voltar ao normal.

Sim, não temos mais 16 primaveras para beber cerveja, vodka e uísque ao mesmo tempo, e levantar no dia seguinte com uma ressaquinha que passa em duas horas com uma aspirina no meio. Temos 3O e alguns invernos que quintuplicam os efeitos desastrosos do álcool. Não dá para fugir: mulher de 30 em diante só não fica malz com os excessos e/ou as misturebas ébrias se já for uma alcóolatra (ou quase). E ainda assim, não deixa de ser uma sessão de aniquilamento em massa de neurônios.

Genocídio celular

Mesmo supondo que não se trata de um caso para o AA, vale olhar a questão com cautela: trata-se apenas de um apagão mental. Sim, colapso cerebral. E a morte prematura de muitas células, não só no cérebro, mas no corpo todo. Obviamente, quando milhares de células morrem e sequer sentimos esse genocídio biológico, é porque o corpo ainda acredita que pode repor os batalhões que faltam (e provavelmente pode mesmo). Mas, no geral, fofas, se a sensação é de que algo realmente catastrófico tomou lugar é bom encarar: o corpinho não aguenta. Pelo menos, não como antes.

Mas, então, pergunto: sem essas loucuras, qual é a graça? Qual é a graça de estar no mundo sem que nos ronde o imprevisível e tentemos agarrá-lo a qualquer custo? Estar etilicamente imprestável tem graça também - e por ser assim, tudo se complica e ganha "nuance". Como quando falamos bobagens incompreensíveis, andamos tropegamente a la Buster Keaton ou discursamos um amor escondido para o mundo inteiro ouvir. Não é divertido? Claro que sim, com exceção da dor de cabeça e da revolução estomacal do dia seguinte. E da certeza de que os anos pesam, e nos desafiam, e, se deixarmos, nos massacram (e aí pode ser que precisemos mesmo do AA).

É mesmo contraditório: encontrar sentido, graça e prazer em algo que faz mal -- e ainda nos faz passar vexames. Mas não deve ser por qualquer coisa que tanta gente se engancha nessa e noutras substâncias, incluindo chocolate, café e açúcar. Ou então em comprar bugigangas. Fazer sexo compulsivamente. Consumir pornografia. Perseguir celebridades. Muda o desejo, mas não "a base emocional" para que ele se torne um vício.

E ainda falta algo. Falta o quê? Seja o que for, deve haver uma ótima interpretação pós-moderna para uma questão tão velha. De todas as maneiras, o fato é que nosso corpo precisa de carinho e de umas tantas "ressacas XXL" a menos simplesmente porque o tempo existe. Existe como sempre foi e sempre será. O tempo não precisa dizer nada. Ele só tem que continuar em ação, sem parar jamais. E a gente só tem que entender.

(*) Conteúdo do jornal Extra, publicado nos EUA, e distribuído pela BR Press.

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bah, acho que tenho que começar a me preocupar ou controlar, hehehe. Já passei do 30...

Comentários

Janaína Severo disse…
Já passamos dos 30 mas ainda podemos e devemos fazer muitas coisas. Não estou sentindo o "peso" da idade pq a minha idade mental permite que eu faça tudo que me der (des)prazer.
Eu sei disso, hehehe. Minha idade mental, de aborrecente, também me permite fazer o que quero. Mesmo assim o corpo balzaquiano sente amiga, hehehe. Mas vamos lá... Meu lema é: viver por prazer!

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