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O amor e as diferenças

por Denise Berman - psicanalista

O ser humano é constituído de forma tal que cada sujeito é um ser único, singular.Isto faz com que não haja dois iguais.Somos, por estrutura, radicalmente diferentes uns dos outros. Certamente, não estou dizendo nenhuma novidade, mas penso que vale a pena uma reflexão mais aprofundada deste aspecto do ser humano, especialmente nos efeitos que ele traz para a relação amorosa, seja ela de que âmbito for. Por que somos radicalmente diferentes? O que nos constitui assim? O ser humano é o ser do simbólico.É o único ser vivo que fala e isto faz dele um ser separado dos outros seres da natureza e também o separa da natureza de forma radical. Vou usar uma imagem, para tentar deixar claro o impacto da palavra sobre o ser humano. Imaginemos uma criança que está para nascer.Ela já tem, antes de vir ao mundo, um universo de palavras esperando por ela. Já tem um nome, já tem uma imagem que a mãe faz dela, e esta imagem é feita de palavras: bonita, levada, inteligente, alta ou até mesmo estorvo quando indesejada.Já tem um lugar na família. Esta criança, ao nascer, tem um encontro com um universo simbólico que a faz tomar forma humana que a marca para sempre e que a faz diferente dos animais. Este encontro da criança com o universo das palavras, na verdade ultrapassa seus pais.Ela entra no universo simbólico das gerações daquela família. Façamos uma imagem que um bebê ao nascer, seja como um montinho de argila a ser moldado pelas palavras dos pais. Digo isto porque o ser humano nasce sem noção do próprio corpo, sente-se como que despedaçado.É o olhar dos pais, através de suas palavras, que vai fazer a função de juntar estes pedaços no formato de um bebê: “os olhos são do pai, o queixo é igual ao do avô, este nariz é de quem?” São palavras que vão apontando para as partes do corpo do bebê visto como inteiro,como uma imagem completa.Aquilo que nasceu como pedaços, como um monte de órgãos, ganha uma costura,uma pele, pela via do olhar e das palavras da mãe: “Aqui vejo um bebê, um ser igual a mim”. Entretanto as palavras, por mais que digam, nunca são capazes de dizer tudo.Isto é da própria estrutura da palavra.Quando você quer relatar um fato da realidade, nunca consegue recobri-lo todo com suas palavras.Sempre se poderia dizer algo mais num deslizamento infinito. Sempre falta a última palavra. Sendo assim, uma mãe jamais poderá dizer a seu filho tudo sobre ele.Tudo sobre quem ele é.Tudo sobre seu desejo por ele. Neste ponto fica uma falta. Um enigma.Uma falta radical. Este ponto vai obrigar o sujeito a construir algo por si mesmo.Algo que dê conta deste ponto que ficou como falta.E cada sujeito faz uma construção particular.Recobre este ponto com uma interpretação própria do que a mãe esperaria dele. Este recobrimento é inconsciente e dirige o sujeito sem que ele perceba.Por isto, muitas vezes vemos pessoas fazendo coisas que nos parecem totalmente nonsense, que inclusive parecem nonsense a elas mesmas, mas elas não podem evitar. Nem nos explicar o porque. Ainda há mais um passo a dar nos enigmas do ser humano. Esta construção inconsciente é possível de ser abordada em análise. É possível de ser alcançada em palavras e o sujeito pode rever esta primeira interpretação e mudar sua posição. Mas esta construção inconsciente, por ser tecida de palavras não dá conta daquilo que ficou como furo porque já era impossível de dizer pela mãe. A mãe como humana e portadora da palavra não pôde dizer tudo ao filho. Nem sobre ele, nem sobre seu desejo por ele. Como disse, o filho se virou como pôde e construiu algo ali, mas restou algo desta construção que resiste como um núcleo inatingível do sujeito. Algo intocável pelas palavras.E este núcleo, instalado pela falta de palavras da mãe é a verdadeira marca de diferença de cada um.Funciona como algo da verdade que pulsa em cada um de nós e que não é nem inconsciente, é inatingível. Este núcleo que fica como algo que restou por dizer, como algo que não se revelou da mãe é o nosso motor. É o que faz com que cada um de nós se mova em busca de algo no mundo.Algo que nos faça nos encontrar com a nossa verdade.Com algo que nos toque de verdade Este algo que nos move não só faz com que ajamos de formas diferentes entre nós, mas com que nos relacionemos com um mundo diferente para cada um.Cada sujeito enxerga uma realidade própria.Isto está na nossa experiência quotidiana.Duas pessoas assistem a um mesmo fato ou a um mesmo filme e vêem ou deixam de ver coisas diferentes.Isto porque este núcleo nos afeta a cada um de uma maneira radicalmente diferente e tendemos a extrair da realidade o que está mais perto do nosso núcleo e tendemos a deixar de ver o que está longe do núcleo, porque não nos interessa. Aqui aparece a questão do amor. Porque não nos apaixonamos por qualquer pessoa? Ao contrário, nos apaixonamos por poucos e certos tipos. E nem sempre o tipo por quem nos apaixonamos é a pessoa que nos traz felicidade. Apaixonamo-nos, porque algo naquele sujeito tocou algo do nosso núcleo enigmático. É o tal do quê, que é impossível de dizer porque encontramos em um indivíduo e não em outro. Aqui um parêntese. O ser humano é perfeitamente capaz de compartilhar idéias e sentimentos.Mas de alguma forma percebe que este núcleo de diferença radical o faz solitário em sua aventura pelo mundo.Então sonha em encontrar a alma gêmea.Aquele que poderá compartilhar tudo com ele.Que erradicará o seu sentimento de solidão, que o completará. É nesta aspiração que reside toda a aposta no amor e todos os problemas que o rodeiam. Vejam bem, a pessoa amada apenas porta um ponto em si que toca algo do ponto enigmático do sujeito em questão. Todo o resto, segue sendo diferença. É um equívoco comum querer que a pessoa amada entenda tudo, veja as coisas da mesma forma, sinta as coisas da mesma maneira. Muitas vezes o sujeito se impede de amar porque acredita tanto na possibilidade do encontro total que teme a fusão. Teme desaparecer, tragado pelo ser amado, desaparecer como diferente e único. Estes efeitos acontecem em qualquer relação de amor. Seja na paixão, no amor entre pais e filhos ou nas amizades. O que varia é a intensidade. Por isto é muito importante observar as diferenças. Quando falamos em casais, é fundamental deixar que o outro exerça livremente o que é do seu repertório construído ao longo da vida e entender que ele não pode fazer diferente do que pulsa nele como vontade, porque há algo da verdade dele ali. É um grande equívoco a frase “Se você me amasse deixava de pescar para me acompanhar”. É claro que o sujeito pode fazer concessões, mas não pode abandonar o que o toca verdadeiramente para sempre, sem pagar um altíssimo preço por isto. O mesmo vale para os filhos. Com já disse antes, cada sujeito vai lidar com este algo que ficou inexplicado de sua própria maneira. Então os filhos vão necessariamente surpreender os pais, porque podem até serem muito parecidos com eles em muitos aspectos, mas carregarão dentro deles este ponto de diferença radical, que os fará únicos no mundo. É preciso, pois, ter espaço e tolerância para as diferenças. Diria mais, é preciso celebrar a diferença, tirar partido do que ela nos traz. Um ser humano pode aprender muito com as novidades que o parceiro lhe traz.Um ser humano pode ser tocado por atos do outro em seu próprio núcleo e isto inspirá-lo em novas aventuras. Da mesma forma os filhos obrigatoriamente nos trazem o novo, nos lançam para o futuro e vale muito mais a pena ouvi-los e abrir a perspectiva para o que nunca havíamos pensado antes, do que tentar enquadrá-los para o “bem” deles. Um sujeito não pode ficar muito longe do que verdadeiramente o toca, senão sob pena de sentir-se muito infeliz. Aliás, depois do que digo a vocês, convido-as à reflexão: - Quem pode saber o que é o bem do outro? Não falo da educação que transmite, pela via da moral o que é bom e o que é mau, que tem que ser ensinados. Mas quem pode saber o que é o bem de cada um, por mais que o ame?
________________________________________
Recebi de um amigo, astrólogo dos bons pra caralho, e decidi publicar em homenagem a amigos (que vestirão a carapuça qdo lerem o post). Aos dois, beijos sinceros. Só espero que um não se gabe, como sempre acontece, embora vá saber ler nas entre linhas também e ver que nem tudo é um mar de rosas, quando se trata de sentimentos. E se ainda assim continuar achando, que tome cuidado com os espinhos.

Comentários

ESTE TEU BLOG É MUITO LOUCO,CHEIO DE COISAS, MEU DEUS!!!!
BJOS MIL
LUZ E PAZ !!!
Anônimo disse…
Ai, que texto louco. E eu que ja tava em crise existencial... To fudida!
Camila Barcellos disse…
Oi, Elaine.
Tudo bem?!

Elaine, venho tentando encontrar um grande amigo (Flávio Berman) e a mãe dele tb é psicanalista e se chama Denise Berman. Inclusive me conhece, somos amigos da época da PUC-Rio.

A Denise é do Rio?! Mora no Jardim Botânico?!

Caso seja ela, POR FAVOR, será que vc poderia passar meu e-mail pra ela?! Ou me passar o dela?!

O meu é camila_barcellos@yahoo.com.br.

Muito obrigada.
Bjo.
Anônimo disse…
Oi Elaine
Eu sou a autora do texto que vc colocou em seu blog.
Como vc teve contato com o texto?
Abs
Denise
meu e-mail é
deniseberman1@yahho.com

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