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Pastel de Rodoviária

Morgana saiu de casa já com seu destino traçado para os próximos meses. Emprego novo, em outra cidade e estado, gente estranha, desafios. Era isso que a esperava. Havia se preparado durante duas semanas para as aventuras, que com certeza iria acontecer. Afinal, cidade pequena, na serra e em pleno verão, eram os indícios de futuras peripécias.

Mas antes de tudo estava a sua passagem por várias estações rodoviárias. Eram mais de dez paradas em municípios desconhecidos ou apenas ouvidos por nome. Porém, isso não era problema, iria sair às 21 horas de sua cidade querida e para Morgana basta entrar no ônibus, inclinar a cabecinha para o lado e sentir o deslizar do veículo para entrar em um sono profundo. E foi o que aconteceu.

Durante o domingo de partida, preparou sua mochila conforme sua mãe lhe ensinara, enrolando as roupas para caber tudinho e não amassar nada. Seu pai a havia brindado com um suculento churrasco às 14 horas, horário de almoço dominical da casa, e bem contente se empanturrou até estar saturada do sabor do carinho familiar. Sabe-se lá quando poderia sentir aquele “gosto” novamente. De barriga cheia, foi despedir-se dos amigos do peito e prometendo, como fazem os políticos, mandar notícias durante a semana, todas as semanas em que estivesse distante. “Fou fazer uma news letter e enviar por email, podem esperar”.

Às 21h embarcou para o seu destino incerto, distante nove horas de seus pais, cerca de 600 quilômetros dos amigos e lugares favoritos. Mas foi logo esquecendo tudo isso. Começou a lembrar que adora viajar e, mentalmente, trajou seu plano para conhecer as redondezas de sua nova cidade sede. Enquanto isso não acontecia se concentrou em algo mais perto de advir: o pastel de rodoviária. Morgana estava com a barriga tão cheinha que nem água conseguiu tomar antes de sair em viagem e, agora, a fome se manifestava em seu interior. “Pastel de rodoviária com ovo dentro só se deve comer em estações das capitais, onde a fiscalização da saúde finge que trabalha, e olha lá...” Já com sono, deixou de lado a ameaça sanitária em seu futuro jantar, e cochilou até o ponto em que cometeria seu atentado à saúde.

“Vinte minutos para o jantar”, foi o anúncio gritado do condutor. Ainda sonolenta, descabelada e com uma bolsa atulhada de objetos pessoais, saiu cambaleando do ônibus, rumo ao balcão de doces e salgados.
- Esse pastel é de que sabor moça?
- De carne. Só tem de carne.
- Tem ovo dentro?
- Não.
- Tá, me dá um, por favor.

Achou estranho não ter mostarda disponível, só catchup e maionese e esse último estava completamente descartável. “Basta abocanhar um pastel de rodoviária. Daí usar maionese de origem mais suspeita ainda, ah, isso já é demais.” Já na terceira bocada de algo que nem de longe se parecia com um saboroso pastel, vem à memória de Morgana um ‘lembrete’ que seu amigo Luis sempre lhe diz quando come goiaba no almoço: “O problema não é achar um bichinho da goiaba, e sim achar meio”. Antes da quarta mordida, Morgana decidi ver o interior do lanche, que de bicho só tinha uma mosca e, ainda bem, não estava pela metade. Por mim

__________________
Pastel de Rodoviária começou a ser produzido na sexta-feira, 27 de janeiro, e foi concluído no horário de almoço desta segunda-feira (30) ensolarada, escaldante desta cidade do lado de cá. É o primeiro texto de uma séria que não sei quando vai terminar, mas já aviso que será bem longa. Já tenho mais dois contos na memória. Agora é só me organizar, sentar a bunda em frente ao computador do trabalho (em horários furtivos da labuta) e escrever.

Comentários

Everton disse…
Olha só, até que enfim o post novo. Vou ler com calma agora. Grande abraço !
Anônimo disse…
Acho bom mesmo produzir nos horários furtivos, pois se o teu chefe te pega ele como o teu figado e nem se importará com bichinhos ....
Mas de resto, gostei do conto, ta bem legal, mas acho que faltou a corrida para o banheiro.

Beijos
Anônimo disse…
Ahh de novo ... vamos tentar novamente e pela última vez...
e era mais ou menos assim ...
è bom escrever furtivamente mesmo os seus contos, pois se o teu chefe te pega come o teu figado, e nem se importa com os bichinhos, se é que restam alguns, se o alcool não matou todos...
Mas gostei da história, só acho que faltou a corrida atropelada para o banheiro na hora com primeiro contato com a mosca
Periférico, vou tentar ser mais assídua nas minhas postagens, pode crer, hehehe. Agora só falta tu revelar a tua identidade secreta. Abs
Caro viajante amigo, não poderia chocar meus leitores, mais do que fiz no final. Enfim, quem gosta de pastel de rodoviária tá correndo riscos. Beijocas cherri
Everton disse…
Muito bom o texto Elaine. Agora, quanto à mosca: - Eca ! Que tempero, hein?

Grande abraço !

E quanto à minha identidade secreta, ela nem é tão secreta não, sou eu, o Super Everton.

Abração.
Anônimo disse…
eu mesma...
sem coments neh kerida... adorei...bjaum...
Gê Morgana(soh porque tu gosta di mi chamar assim hehehe)

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