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Quando é que ele vai vir de ônibus espacial mãe?


Sai de casa bem feliz. Ria de mim mesma pelo caminho. Aos poucos ia me aproximando do local e pelas ruas adjacentes percebia o número de carros estacionados. “Hummm, deve estar cheio”.

Estava no horário. Talvez um pouco antecipada para o “grand finale”. Pelo caminho, já conhecido, via as crianças e nos seus rostos expressões de tédio. Achei estranho, mas conhecia os pequenos. O que poderia ser mais interessante além de guloseimas diferentes as aquelas que já estão acostumadas? Parei-as por um momento e perguntei:

- O Papai Noel já chegou? Em tom de voz animado e sorridente, para ver se elas manifestavam alegria no lugar do desânimo.

- Não. Respondeu o guri. A guria nem se manifestou...

Despedi-me dos pequenos e continuei as passadas rumo a Aldeia do Papai Noel. Já estava perto, então, do meu destino, naquela noite estrelada de sexta-feira.
Quando cheguei, fiquei surpresa... Não vi os animais, não vi os duendes, não vi os anjos, não tinha árvore de Natal e nem presentes. Num canto, algumas crianças disfarçavam-se de Papai Noel. Na sacada do Museu do Vinho, outras crianças lá estavam, vestidas de roupas e gorro avermelhado. Eram do coro. Porém, famílias estavam lá, já aguardando o momento em que o Papai Noel desceria pela tirolesa, da janela do museu até o final da rua. Pensei: “vai ser divertido”. Estava crendo...

Enquanto aguardávamos, todos, o momento final, músicas eram entoadas a fim de motivar o público. Mas o que mais motivaria aquelas pessoas e crianças, senão uma árvore de Natal, mesmo com presentes falsos, a poltrona do bom velhinho - a espera do comandante -, os duendes a animar e as luzes piscantes e coloridas? Não músicas, àquelas músicas... Passei minutos com o riso incrédulo e ridículo, não crendo no que estava vendo e ouvindo. Se eu já estava decepcionada, uma guria-mulher de seus 33 anos, imagina as crianças ali presentes... A noite mágica, então, já estava começando a esmorecer.

Fogos de artifício, cantos de natal, banda com marchinhas, tudo ao mesmo tempo, estava ruindo com o encanto e a expectativa da chegada do bom velhinho. Pensei em ir embora, como o casal de irmãos que havia encontrado pelo caminho, mas a criança dentro de mim queria ficar, ao mesmo tempo em que a mulher incrédula com o que se apresentava a todos, divertia-se com os desastres.

Foi anunciada a presença dele. Todos viraram os rostos para a janela do museu, aonde acenava o homem barbudo e grisalho. Embaixo, os acenos de retribuição e o coro das crianças gritando por ele. Aí, um brilho e a esperança passearam por meus olhos e vi que seria legal. Até o Papai Noel, magro, mas com enchimentos na barriga, travou na janela, como se tivesse medo ou realmente fosse gordo. Pronto! Estava feio o encanto por completo. Papai Noel trocou as renas pela tirolesa e ainda estava com medo. O que sobrava pra nós então, crentes, fiéis de sua história?

Empurrado por um ajudante, que talvez já estivesse entediado há muito tempo, Papai Noel desceu na janela, pegou o saco, quase vazio, sua bengala, que quase deixou cair, e veio, lentamente, corda abaixo. A agonia do nem tão bom e velhinho estava latente. Alguém deveria ter grita: “Coragem!” Mas estavam todos, inclusive as crianças, tão chocadas, que nenhuma voz se sobressaiu. No meio do caminho, que nem era tão longo assim, já que parou sobre o palco, ao invés de percorrer toda a extensão da tirolesa, ele perdeu o saco de presentes - sem presentes. Parecia ser o fim, mas o pior ainda estava por vir. Ele seguiu descendo ainda mais lento que antes, para no final do trajeto, quase cair... Perto do palco foi agarrado pelo tronco por um outro ajudante. A mestre de cerimônia teve que pedir aplausos para ele, pois o público, estarrecido, não tinha motivos para tal ato.

Para minimizar o trauma, vieram então as balas que Papai Noel, tão gentilmente, deveria ter distribuído entre o público. Mas não. O velho deve ter síndrome do pânico, pois ficou no palco, atirando, com gestos de poucos amigos, balas para os que ainda resistiram até o final de sua chegada.
“Aonde foram parar as renas do Papai Noel?” Faria essa pergunta a minha mãe, se fosse uma das crianças presentes. Se fosse a mãe dessa criança fictícia, responderia: “Papai Noel se modernizou meu filho. Agora ele usa outros meios de transporte.” Como seria uma criança insatisfeita, responderia com outra pergunta: “E quando é que ele vai vir de ônibus espacial mãe?”

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